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No documentário “Raul – O Início, O Fim e o Meio”, de Walter Carvalho, o parceiro Cláudio Roberto conta que Raul Seixas se apropriava de músicas estrangeiras e colocava letras em português (sem dar crédito aos compositores originais). São inúmeros os exemplos de artistas e bandas que recorreram ao mesmo subterfúgio. Mas, nos atendo ao universo raulseixista, enumeramos abaixo uma lista de canções que o músico baiano se apoderou e outras que o teriam inspirado a compor clássicos como “Maluco Beleza”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás” e “Cowboy Fora da Lei”. Raul era um excelente compositor, que aglutinava influências diversas – como o rock de Elvis e o baião de Luiz Gonzaga – e criava seu próprio universo. 

 

 

1. The Beatles – Ob-La-Di, Ob-La-Da

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Raul Seixas – Peixuxa (O Amiguinho dos Peixes)

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2. The Byrds – Mr. Spaceman

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Raul Seixas – S.O.S.

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3. Elvis Presley – Beach Boy Blues

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Raul Seixas – Na Rodoviária

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4. Charlie Monroe – Down in the Willow Garden

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Raul Seixas – À Beira do Pantanal

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5. Jimmy Breedlove – Killer Diller

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Raul Seixas – Rock das Aranha

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Raul fala sobre "Killer Diller"

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Já as canções a seguir não são necessariamente plágios, mas possuem elementos que remetem a determinadas canções de Raul Seixas:

 

 

1. Bob Dylan – I Want You (lembra “Cowboy Fora da Lei”)

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Raul Seixas – Cowboy Fora da Lei

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2. Howlin' Wolf – Smokestack Lightnin' (lembra andamento de “As Minas do Rei Salomão”)

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Raul Seixas – As Minas do Rei Salomão

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3. Carl Perkins – Honey Don't (lembra “Rock do Diabo”, principalmente a introdução)

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Raul Seixas – Rock do Diabo

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4. Simon & Garfunkel – Bridge over Troubled Water (lembra “Ave Maria da Rua”)

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Raul Seixas – Ave Maria da Rua

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5. Christophe – Aline (o refrão lembra “Maluco Beleza”)

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Raul Seixas – Maluco Beleza

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6. John Lennon – I Don’t Wanna Be a Soldier, Mama, I Don’t Wanna Die

(a inspiração de “Mamãe, Eu Não Queria”)

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Raul Seixas – Mamãe, Eu Não Queria

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7. John Lennon – Love (lembra "Love is Magick")

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Raul Seixas – Love is Magick

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8. Elvis Presley – I Was Born Ten Thousand Years Ago (canção tradicional americana, que teria inspirado “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”)

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Raul Seixas – Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás

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Em sua edição de março de 1969, a revista “Realidade” – antiga publicação da Editora Abril – trazia uma matéria sobre a então recém-lançada biografia dos Beatles (escrita por Hunter Davies). Numa forma de ilustrar a reportagem, Carlos Drummond de Andrade foi incumbido de traduzir algumas letras do disco mais recente da banda, “The Beatles” – popularmente conhecido como Álbum Branco –, lançado no ano anterior.

 

O poeta mineiro escolheu seis canções para verter ao português: “Ob-la-di, Ob-la-da”, “Piggies”, “Why Don’t We Do It in the Road”, “I Will”, “Blackbird” e “Happiness is a Warm Gun”. São reproduzidas, logo abaixo, as letras originais de Lennon, McCartney e Harrison; seguidas da tradução de Drummond.

 

OB-LA-DI, OB-LA-DA
(John Lennon - Paul McCartney)

Desmond has a barrow in the market place
Molly is the singer in a band
Desmond says to Molly girl I like your face
And Molly says this as she takes him by the hand

Ob-la-di ob-la-da life goes on bra
La-la how the life goes on
Ob-la-di ob-la-da life goes on bra
Lala how the life goes on

Desmond takes a trolley to the jewellers store
Buys a twenty carat golden ring
Takes it back to Molly waiting at the door
And as he gives it to her she begins to sing

In a couple of years they have built
A home sweet home
With a couple of kids running in the yard
Of Desmond and Molly Jones

Happy ever after in the market place
Desmond lets the children lend a hand
Molly stays at home and does her pretty face
And in the evening she still sings it with the band

Happy ever after in the market place
Molly lets the children lend a hand
Desmond stays at home and does his pretty face
And in the evening she still sings it with the band

And if you want some fun Take Obladi oblada.

 

OBLADI, OBLADÁ
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

Desmond tem um carrinho na Praça do Mercado.
Molly vocaliza num conjunto.
Desmond diz a Molly: Por teu rosto sou vidrado
Molly diz-lhe: O quê? E pega-lhe na mão.

Obladi, obladá, a vida continua: olá,
olalá, como a vida continua!
Obladi, obladá, a vida continua... Olá,
olalá, como a vida continua!

Desmond toma o ônibus, vai à joalheria
compra anel de ouro de ofuscar
e leva-o a Molly, que espera junto à porta.
De anel no dedo, eis Molly a cantar.

Em um par de anos terão construído
um lar bacana doce que nem cana.
Um par de garotos corre pelo pátio
desse casal unido.

Olha Desmond feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Molly ficou em casa se enfeitando
e à noite ainda canta no conjunto.

Olha Molly feliz na Praça do Mercado.
Ao lado, os molequinhos ajudando.
Desmond ficou em casa se enfeitando
e à noite ela ainda canta no conjunto.

E se querem se divertir, obladi, obladá!

PIGGIES
(George Harrison)

Have you seen the little piggies
Crawling in the dirt
And for all the little piggies
Life is getting worse
Always having dirt to play around in

Have you seen the bigger piggies
In their starched white shirts?
You will find the bigger piggies
Stirring up the dirt
Always have clean shirts to play around in

In their styes with all their backing
They don't care what goes on around
In their eyes there's something lacking
What they need's a damn good whacking

Everywhere there's lots of piggies
Living piggy lives
You can see them out for dinner
With their piggy wives
Clutching forks and knives to eat their bacon
 

PORCOS
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

Viste os porquinhos
rebolando na imundície?
Para todos os porquinhos
a vida está cada vez mais difícil
e brincam sempre na sujeira por aí.

Viste os mais taludos porquinhos
em suas engomadas, alvíssimas camisas?
Olha os mais taludos porquinhos
em algazarra na imundície
com camisas alvíssimas a folgar por aí.

Em seus chiqueiros, plenamente protegidos,
ao que vai por aí nem ligam.
Nos olhos deles falta uma coisinha:
precisam mesmo é de suma porcaria.

Por toda parte há muitos porquinhos
vivendo suas porquinhas vidas.
Podes vê-los para o jantar saindo
com suas porquinhas mulherinhas
de garfo e faquinha para comer presunto.
 

WHY DON'T WE DO IT IN THE ROAD?
(John Lennon - Paul McCartney)

Why don't we do it in the road?
No one will be watching us
Why don't we do it in the road?
 

E POR QUE NÃO AQUI NA ESTRADA?
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

E por que não aqui na estrada?
Não há ninguém para ver nada
E por que não aqui na estrada?

  

I WILL
(John Lennon - Paul McCartney)

Who knows how long I've loved you,
You know I love you still,
Will I wait a lonely lifetime,
If you want me to I will.

For if I ever saw you,
I didn't catch your name,
But it never really mattered,
I will always feel the same.

Love you forever and forever,
Love you with all my heart;
Love you whenever we're together,
Love you when we're apart.

And when at last I find you,
Your song will fill the air,
Sing it loud so I can hear you,
Make it easy to be near you,
For the things you do endear you to me,
oh, you know I will.
I will.
 

FAREI TUDO
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

Desde sempre te amei
e bem sabes que ainda te amo.
Devo esperar toda a vida?
Se quiseres
– esperarei.

Se alguma vez te vi
nem sequer teu nome escutei.
Mas isso não faz diferença:
sempre a mesma coisa sentirei.

Eu te amarei por todo o sempre, sempre,
desde a raiz do meu coração
e te amarei quando estivermos juntos
e te amarei na solidão.

Quando finalmente te encontrar
tua canção envolverá o espaço.
Canta bem alto, para eu escutar.
Tudo farei para te dar o braço
pois tudo em ti me prende a mim.
Bem sabes que farei tudo
Tudo farei.
 

BLACKBIRD
(John Lennon - Paul McCartney)

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise.

 

Blackbird singing in the dead of night

Take these sunken eyes and learn to see

All your life

You were only waiting for this moment to be free.

 

Blackbird fly, Blackbird fly

Into the light of the dark black night.

 

Blackbird fly, Blackbird fly

Into the light of the dark black night.

 

Blackbird singing in the dead of night

Take these broken wings and learn to fly

All your life

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise

You were only waiting for this moment to arise.

 

MELRO
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu vôo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu vôo.

Melro que cantas no morrer da noite,
com estes olhos fundos aprende a ver
A vida toda
esperaste a hora e a vez de ser livre.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.

Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu vôo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu vôo
esperaste a hora e a vez de teu vôo
esperaste a hora e a vez de teu vôo.


HAPPINESS IS A WARM GUN
(John Lennon - Paul McCartney)

She's not a girl who misses much
Do do do do do do do do
She's well acquainted with the touch of the velvet hand
Like a lizard on a window pane.

The man in the crowd with the multicoloured mirrors
On his hobnail boots
Lying with his eyes while his hands are busy
Working overtime
A soap impression of his wife which he ate
And donated to the National Trust.

I need a fix 'cause I'm going down
Down to the bits that I left uptown
I need a fix cause I'm going down
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun
Mother Superior jump the gun.

Happiness is a warm gun
Happiness is a warm gun
When I hold you in my arms
And I feel my finger on your trigger
I know no one can do me no harm
Because happiness is a warm gun
– Yes it is.
 

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE
(Tradução: Carlos Drummond de Andrade)

Até que essa garota não erra muito
oi  oi  oi  oi  oi  oi  oi  oi
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
como lagartixa na vidraça.

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólve quente, lá isso é.

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EVA WILMA E O TESTE COM HITCHCOCK
Uma das fotos para o teste

No livro “Eva Wilma – Vida e Arte”, de Edla van Steen (Coleção Aplauso, Imprensa Oficial, 2006), a atriz brasileira fala a respeito do teste realizado com Alfred Hitchcock em 1969, em Los Angeles. Eva estava cotada para viver a personagem cubana Juanita de Córdoba no filme “Topázio”.

 

Hitchcock foi convencido pela Universal a adaptar o livro homônimo de Léon Uris; que o estúdio acabara de adquirir os direitos por uma fortuna. O mestre do suspense, sempre avesso à política, agora estava às voltas com uma história de espionagem – baseada em fatos reais. Na trama, o serviço secreto de vários países se unia para desvendar um enredo misterioso envolvendo russos em Cuba e um agente duplo infiltrado nos altos escalões do governo francês. “Topázio” era, deliberadamente, anticomunista e trazia inúmeras cenas retratando o entorno de Fidel Castro de forma sarcástica.

 

Sobre o teste com Hitchcock, Eva Wilma relata na obra: “Em Los Angeles, visitamos estúdios de televisão e cinema. Almoçando um dia nos estúdios da Universal Pictures, um agente apresentou-se a nós – já sabendo que éramos atores brasileiros – e disse que Alfred Hitchcock procurava uma atriz latino-americana para o papel de uma cubana no filme Topázio, que ele iria rodar. Concordei em fazer as fotos (que estão comigo) e fomos para Nova York, onde ficamos os últimos cinco dias.

 

(...) O tal agente (nos telefonou), dizendo que Hitchcock e a Universal gostaram das fotos e pediam currículo e material filmado. Em novembro, o agente comunicava – por telefone e por escrito – que estavam mandando passagem de primeira classe; oferecendo hospedagem idem para um teste.

 

(...) Finalmente, o grande dia do teste chegou. Saí às seis horas da manhã, como sempre. Umas três ou quatro horas depois, fui conduzida – de dente e seios postiços, trêmula – ao estúdio. Cerca de uns 50 técnicos (a maioria de cabelos bem branquinhos) já estavam a postos no cenário; com a iluminação pronta. Ao lado, um trailer com o meu nome na porta. Alguns minutos depois, apareceu um dos assistentes: ‘Miss Eve, please’. Fui conduzida ao cenário. Logo todos se levantam e aplaudem: ele, Mr. Hitchcock, entrava no set. Aproximou-se de mim, segurou minhas mãos geladas e perguntou se eu estava nervosa. Disse que sim. Ele explicou que aquilo era uma brincadeira. Que se alguém quisesse fazer algo sério, devia ir trabalhar num hospital ou seguir carreira política; que teve de repetir a mesma coisa para Grace Kelly, Ingrid Bergman... Ele se dirigiu à sua cadeira e deu instruções para a primeira parte dos testes”.

 

As duas primeiras partes consistiam em pequenas cenas no estúdio. Na terceira parte, o teste foi conduzido pelo próprio Hitchcock. Eva Wilma continua o relato: “Sentei-me confortavelmente numa cadeira – o mestre na minha frente, em outra cadeira. Uma câmera (estava) colada a ele, focalizando-me em close. Ele gritou ‘Câmera’, ‘Ação’ e começou a dialogar comigo; primeiro com perguntas corriqueiras, do tipo está-se-sentindo-melhor-agora? Fui respondendo com calma, mas, aos poucos, ele foi fazendo perguntas mais provocativas.

 

Fiquei irritada e argumentei que não conseguiria responder, a toda e qualquer provocação, numa língua que não é a minha. Ele então disse: ‘Pois responda na sua língua’. E eu: ‘Se o senhor pensa que vai conseguir me tirar do sério, me fazendo vir lá do terceiro mundo, de um país tão conturbado, tão cheio de problemas, para me provocar; não, não e não’. Enganara-se, redondamente (não me lembro exatamente das minhas palavras em português – estava irritadíssima – naquele momento; mas sei que respirei aliviada ao ouvir ‘Cut’). Ele me deu um abraço e aplausos irromperam antes da saída de Hitchcock do estúdio.

 

(...) Somente três meses depois daquele teste, o agente nos comunicou que o filme fora adiado, em virtude de uma forte gripe que o mestre Hitchcock tivera, durante aquele inverno. E que, na retomada da filmagem, ele havia escolhido uma atriz alemã (para o papel): Karin Dor. Se ela fez o teste antes ou depois de mim, não sei. Fiquei frustrada. Eu gostaria de ter sido escolhida. Topázio não foi um dos melhores filmes do Hitchcock. Como se isso servisse de consolo... Eu queria muito ter feito o filme”.

 

Acontece que, terminadas as filmagens, o diretor não queria nem ouvir falar em “Topázio”. A Universal não gostou do resultado e, quando lançado, o longa-metragem colorido foi um fracasso de crítica e público.

 

LEIA:

Eva Wilma – Vida e Arte, de Edla van Steen

 

ASSISTA:

Eva Wilma comenta o teste com Hitchcock

Cena de Karin Dor – como Juanita de Córdoba – em “Topázio” (1969)
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Em 1979, Ferreira Gullar entra no Estúdio Sigla – acompanhado do instrumentista Egberto Gismonti – para registrar, em áudio, alguns de seus poemas. As sessões de gravação, em 16 canais, deram origem ao LP duplo Antologia Poética Ferreira Gullar, lançado no mesmo ano pela Som Livre. Todos os arranjos e regências são conduzidos por Gismonti. A poesia inclusa no disco foi extraída dos livros “Luta Corporal” (1954) e “Dentro da Noite Veloz” (1975).

 

No encarte, Gullar comenta a empreitada: “Acredito que todo poeta gostaria que seus poemas chegassem às pessoas levados por sua própria voz; porque a voz humana – a fala – é a matéria natural da poesia. Todo mundo sabe que, antes de haver linguagem escrita, já havia poesia. (...) Eu gosto de dizer meus poemas e estou contente de saber que agora, gravados em disco, as pessoas poderão ouvi-los saindo de minha própria boca. E mais contente ainda porque as minhas palavras se juntam aqui aos ritmos e melodias que Egberto Gismonti fez nascer delas, criadoramente”.

 

Mas, anteriormente, o poeta maranhense já havia gravado sua obra de maneira informal... Durante uma sessão de leitura (realizada na casa de Augusto Boal, em Buenos Aires) em novembro de 1975, Ferreira Gullar – então exilado na Argentina – lê para os amigos a obra-prima “Poema Sujo”. Vinicius de Moraes, que organizou o encontro, pede a Gullar uma cópia do poema em fita cassete. De volta ao Rio, Vinicius promove diversas audições do material com intelectuais e jornalistas. O editor Ennio Silveira resolve publicar o texto em livro. Em 1976, o "Poema Sujo" é lançado pela Civilização Brasileira (sem a presença do poeta).

 

Em março de 1998 (Poesia Sempre, ano 6, n. 9), Gullar explica a diferença entre um poema e uma letra de música: “Letra de música não é poema. Você pode encontrar exceções mas, na grande maioria dos casos, uma letra de música necessita da música para alcançar sua expressão cabal. (...) O poema tem uma linguagem própria, que constitui uma elaboração específica e distinta da letra de música. É tão difícil fazer uma letra de música boa quanto um bom poema, pois isso requer conhecimento e domínio da técnica musical; enfim, sutilezas que o poema também exige. Só que é diferente. Parece-me uma coisa absolutamente escandalosa toda essa confusão”.

 

Suas primeiras ligações com a música, todavia, remontam à década de 1960. Em 1966, Gullar escreve um texto para a contracapa do álbum “Manhã de Liberdade”, de Nara Leão. Nesse disco, ainda figuram duas letras do poeta: “Como Dois e Dois são Quatro” (em parceria com Denoy de Oliveira) e “Canção do Bicho” (creditada a ele, Denoy, Geni Marcondes e Oduvaldo Vianna Filho). No ano seguinte, “Onde Andarás” é incluída no auto-intitulado LP de Caetano Veloso (que trazia faixas como “Tropicália”, “Alegria, Alegria” e “Soy Loco por Tí, América”). Já em 1968, Gullar também escreve o texto anexado na contracapa de “Recital na Boite Barroco”, da cantora Maria Bethânia.

 

Quantitativamente, o maior “parceiro” do poeta foi Raimundo Fagner. O cantor e compositor cearense gravou as músicas: “Primeiros Anos” (do álbum “Soro”, lançado em 1979); “Traduzir-se” (do disco homônimo, de 1981); “Contigo” (Palavra de Amor, 1983); “Me Leve (Cantiga para Não Morrer)” foi registrada em “A Mesma Pessoa” (1984); “Rainha da Vida” (Lua do Leblon, 1986) e “Menos a Mim” (Pedras que Cantam, 1991).

 

O sucesso “Borbulhas de Amor (Tenho um Coração)” é, na realidade, uma versão em português – feita por Ferreira Gullar – para a canção “Burbujas de Amor”, de Juan Luis Guerra (Pedras que Cantam, 1991). Entrevistado pelo jornal Estado de Minas em 10/09/2000, ele esclarece: “O Fagner, por conta própria, pegou os meus poemas e começou a botar música. Depois me procurou e falou: ‘Ô, poeta, eu quero mostrar pra você as músicas que coloquei nos seus poemas’. E assim começamos as parcerias e ele a me chamar de parceiro”.

 

Com Milton Nascimento, Gullar foi parceiro em “Bela, Bela” (gravada por Alaíde Costa no álbum “Amiga de Verdade”, lançado em 1988) e em “Meu Veneno” (gravada por Selma Reis no disco homônimo de 1990). Ambas as canções, posteriormente, ganharam releituras do próprio Bituca. O poeta fala sobre o cantor do Clube da Esquina: “Em 1979, o pessoal fez um espetáculo com o ‘Poema Sujo’. Tinha a Esther Góes e o Rubens Correia. O Milton foi chamado para fazer a música e ele musicou uma série de trechos do poema. Num outro caso, numa peça francesa sobre o Tiradentes – montada pelo Fagundes, cujo texto eu traduzi para o português –, havia um poema que eu reescrevi e o Milton pôs música nesse poema também”.

 

O sambista Paulinho da Viola também registrou uma composição no álbum “Bebadosamba”, de 1996. Gullar relembra o fato: “O Paulinho da Viola, que é meu amigo próximo (porque mora aqui no Rio e às vezes me procura para bater papo), me pediu uma letra para seu novo disco. Eu fiz a letra e assim nasceu Solução de Vida, que tem como subtítulo Molejo Dialético”.

 

Em 2002, a editora Salamandra sugeriu à Adriana Calcanhotto musicar “Um Gato Chamado Gatinho”, livro infantil do poeta. O projeto nunca foi concluído. Três anos depois, entretanto (no disco “Adriana Partimpim – O Show”), a cantora inclui no repertório quatro poemas musicados por ela: “O Ron-Ron do Gatinho”, “Gato pensa?”, “Dono do Pedaço” e “O Gato e a Pulga”. Calcanhotto ainda musicou “Definição de Moça”, gravada por Simone no disco “Na Veia”, de 2009.

 

Seu maior orgulho, porém, foi criar uma letra para a Bachiana nº 2, de Heitor Villa-Lobos; rebatizada como “O Trenzinho do Caipira”. O primeiro registro da canção pode ser ouvido no LP “Camaleão”, de Edu Lobo (lançado em 1978). Numa crônica recente, intitulada “Cantando pela Serra do Luar” (Folha de S. Paulo – 23/01/2011), Gullar conta: “Estou eu-outrora, diante da máquina de escrever Lettera 22, inventando o ‘Poema Sujo’. E é nesse momento do poema, quando lembro das viagens de trem que fazia com meu pai, que a ‘Bachiana nº 2’ invade o quarto. (...) E a letra que, durante 20 anos, tentara escrever, sem o conseguir, escrevo-a então em menos de 20 minutos”.

 

Também é de autoria do poeta a música “Escuta Moça” (Íntimo, 1984), gravada por Sueli Costa. No álbum “Maricotinha Ao Vivo” (2002), a amiga Maria Bethânia recita “Eu Não Sabia, Tu Não Sabias”. Já em “Brasileirinho” (2003), ela convida o próprio Ferreira Gullar para recitar o poema “O Descobrimento”, de Mário de Andrade. Em 2009, o poeta participa das gravações do disco “Alegria Girar”, da banda piauiense Validuaté. Em “Pedaço de Poemas Portugueses”, ele recita um trecho de “Luta Corporal”. Na faixa seguinte, é homenageado na canção “O Hermeto e o Gullar”.

 

OUÇA:

Ferreira Gullar – O Quartel

Ferreira Gullar – O Inferno

 

ASSISTA:

Ferreira Gullar, 80 anos

Entrevista com o poeta

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Terminada a Copa do Mundo, as atenções se voltaram para a Copa dos Imundos. E a disputa aproxima-se do fim! A taça ficará nas mãos podres da seleção vermelha (capitaneada pelo zagueiro Dilmão) ou nas da seleção azul (comandada por Serra Simpson)?

 

Para chegar à final da competição, as duas equipes mostraram do que são capazes. A seleção vermelha teve melhor desempenho na fabricação de dossiês, no aparelhamento do Estado e no uso da máquina em benefício próprio. A torcida organizada dos colorados comemora antecipadamente: pelegos fundamentalistas, mensaleiros, sanguessugas, MST, beneficiários do Bolsa Miséria, intelectuais “de esquerda”, banqueiros e empreiteiros (todos abastecidos com benesses públicas).

 

O time azul amarga uma fila de 8 anos, não faz oposição e ainda glorifica os descalabros do governo molusco. Os gritos da torcida tucana soam fracos. Nas arquibancadas azuladas estão os tecnocratas, os fraudadores de licitações e os picolés de chuchu. Na falta de propostas e/ou de diretrizes, ambos os lados querem exaltar suas “diferenças”. Mas, quando a partida começa, o esquema tático é adaptado para pior. O que antes era feito por debaixo dos panos, hoje é realizado sem a menor cerimônia.

 

A pátria de chuteiras conhecerá amanhã a seleção campeã. Dizem que não haverá maiores surpresas, pois o árbitro já foi subornado... Enquanto os ânimos se agitam, o Deus Lula pensa nas metáforas futebolísticas da Copa de 2014 (que celebrará sua volta ao trono).

 

LEIA:

A Copa dos Ladrões

 

ASSISTA:

O Verdadeiro Logo da Copa 2014

A Copa do Mundo é Nossa

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CAN'T BUY ME LOVE - PAUL McCARTNEY EM SÃO PAULO

Para aqueles que não conseguiram ingresso:


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PROIBIDÃO DO ROBERTO

Em 1º de dezembro de 2006, a biografia não-autorizada “Roberto Carlos em Detalhes” é lançada pela editora Planeta. Escrita pelo jornalista e historiador Paulo Cesar de Araújo, mesmo autor do excelente “Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar”, a obra esmiúça a carreira do cantor e revela pormenores de sua vida íntima. O livro, de 504 páginas, é fruto de 15 anos de um trabalho árduo de pesquisa e faz uma importantíssima contextualização de Roberto Carlos dentro do universo da música brasileira. Procurado várias vezes ao longo dos anos, o homenageado se recusou a dar entrevistas ao escritor.

 

O rei manifestou-se publicamente contra a biografia em 11 de dezembro, durante a tradicional coletiva de fim de ano. Entre os trechos que o teriam incomodado, estariam as referências à morte de sua mulher Maria Rita, ao acidente que feriu sua perna na infância e às conquistas amorosas do cantor. Mesmo sem ter lido a obra, Roberto afirmou que processaria o autor e a editora.

 

No fim de fevereiro de 2007, os advogados do músico conseguiram uma liminar que suspendia provisoriamente a comercialização do livro (numa ação cível cujo descumprimento obrigaria a Planeta a pagar uma multa diária de R$50 mil). A editora acatou a liminar, mas, como as livrarias continuaram a vender o título, Roberto resolveu entrar com uma ação criminal. O juiz Tércio Pires, da 20ª Vara da Barra Funda, em São Paulo, convocou uma audiência de conciliação para o dia 27 de abril. Após 5 horas, os advogados do cantor e da Planeta fizeram um acordo que previa a interrupção definitiva da produção – e comercialização – da biografia. À saída do encontro, o rei não deu declarações. Já Paulo Cesar Araújo, chorando muito, disse que “chegou a propor tirar os 5% que ele (Roberto) não tinha gostado e abrir mão dos direitos autorais para que a história permanecesse”.

 

Os cerca de 11 mil exemplares da obra estocados na editora foram entregues ao compositor e levados para um armazém em Santo André (SP). Quanto ao destino do material, duas opções foram cogitadas: reciclagem do papel ou incineração. Numa entrevista coletiva em Miami (EUA), no dia 22 de maio de 2007, Roberto falou pela primeira vez sobre o assunto. O cantor declarou que a retirada de circulação “não foi censura”, e sim “proteção de privacidade”. Ele também negou que pretendia queimar as cópias recolhidas do estoque da Planeta. “Não sei de onde tiraram essa história. Isso seria agressivo e eu não tomo esse tipo de atitude”.

 

A proibição alçou o livro ao topo das listas de mais vendidos. Roberto resignou-se com o fato. “No momento em que algo se torna limitado, nada mais normal que a curiosidade aumente, e não há nada que possa ser feito”. O músico rechaçou a hipótese de editar o trabalho sem as partes que o desagradaram. “Isso sim seria censura”, concluiu.

 

Uma curiosidade: o texto sobre o cantor, que a Sony-BMG distribuiu à imprensa (durante a coletiva em Miami), foi retirado da internet e citava a obra de Araújo como uma das fontes.

 

ASSISTA:

Robeto Carlos – Quero que Vá Tudo pro Inferno

Roberto Carlos – Você Não Serve pra Mim

Roberto Carlos – I Love You

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DOIS OLHARES SOBRE A HORA DOS RUMINANTES
Person e Veiga

José J. Veiga só conseguiu publicar seu primeiro livro, “Os Cavalinhos de Platiplanto”, em 1959 (aos 44 anos de idade). Apresentando argumentos numerológicos e estilísticos, o amigo Guimarães Rosa recomendou ao escritor goiano o acréscimo do “J.” ao seu nome literário. A ausência de significado da abreviação não impediu que Veiga adotasse a sugestão e passasse a assinar todos os seus romances dessa forma.

 

Uma de suas obras mais marcantes é “A Hora dos Ruminantes”, lançada em 1966. José J. Veiga, sempre partindo do fantástico e do sobrenatural, cria uma narrativa instigante, relatando os estranhos acontecimentos ocorridos na interiorana Manarairema. A rotina pacata dos habitantes é quebrada por uma sucessão de fatos inexplicáveis. A chegada de homens sisudos e inflexíveis ao local marca o começo das mudanças. Na sequência, a cidade é tomada por diversos animais que, mais tarde, darão lugar aos misteriosos bois – causadores da destruição, da desordem e cuja presença parece que nunca terá fim. Numa abordagem inédita, o autor analisa o comportamento humano diante da opressão e da violência (em plena ditadura militar), das mudanças repentinas, do inusitado e do incompreensível.

 

Um dos sonhos de Luiz Sergio Person, diretor de “São Paulo S/A”, era adaptar “A Hora dos Ruminantes” para o cinema. Ele passou 20 anos lutando para concretizar este que seria seu maior projeto – e morreu em 1976, num acidente automobilístico, sem ter realizado tal façanha. Em 1968, Person viaja aos EUA em busca de apoio financeiro. O diretor volta ao Brasil decepcionado, ao receber de produtores americanos a seguinte proposta: dirigir um longa-metragem centrado em bananas, bossa-nova, praia e Carmen Miranda...

 

O script da produção foi escrito em parceria com Jean-Claude Bernardet. O crítico e teórico cinematográfico relembra essa passagem: “Minhas maiores identificações (no cinema) foram com o Person, com quem fiz três roteiros. Apenas ‘O Caso dos Irmãos Naves’ foi filmado. Nossa aliança prosseguiu com o roteiro de ‘A Hora dos Ruminantes’, cuja produção foi interrompida. Era um trabalho muito forte e intenso, mas houve apenas um início de locações e figurinos. Aconteceu que (Mário) Civelli – o mesmo produtor de ‘Naves’ – estava com um problema cardíaco e não pôde se engajar numa produção ainda maior. Ele indenizou Person doando os negativos comprados para esse filme”.

 

Sem dinheiro para fazer “A Hora dos Ruminantes”, o cineasta acabou filmando “Panca de Valente” (seu trabalho menos interessante).

 

ASSISTA:

Trechos de O Caso dos Irmãos Naves, de Luiz Sergio Person

José J. Veiga – A Hora dos Ruminantes
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FERNANDO PESSOA E ALEISTER CROWLEY
Crowley e Pessoa jogando xadrez

A revista Presença, em sua edição 33 (Julho/Outubro de 1933), publica a tradução de Fernando Pessoa para “Hino a Pã”, de Mestre Therion. Houve quem creditasse a autoria dos versos a mais um heterônimo do escritor português. O poema, na realidade, foi escrito pelo polêmico ocultista britânico Aleister Crowley – que usava até de violência em seus rituais de magia e se autodenominava como “A Besta do Apocalipse”, cujo número é 666.

 

Ao ler o horóscopo de Crowley, numa publicação inglesa, Pessoa descobre algumas falhas e apressa-se em apontá-las ao ocultista. Tempos depois, o poeta recebe uma carta de Londres reconhecendo os erros. Graças ao interesse de ambos pela astrologia, estabelece-se uma troca de correspondências. O poeta envia os seus “English Poems” ao mago e, certo dia, recebe a notícia que este iria a Portugal especialmente para conhecê-lo.

 

Como nos conta João Gaspar Simões, futuro biógrafo de Pessoa, o escritor ficou preocupado com a visita inesperada “daquele feiticeiro, cuja espantosa biografia lhe fora dado a conhecer lendo a história das suas estranhas aventuras na obra onde discernira o erro de interpretação astrológica”. Desembarcando do navio Alcântara em 02 de Setembro de 1930, Crowley teria 55 anos quando chegou a Lisboa.

 

Semanas depois, o poeta colabora com a encenação do suicídio de Crowley na Boca do Inferno; o que permitiu ao ocultista escapar incólume de suas amantes e também do conhecimento público (ele tinha sido um agente duplo dos ingleses e dos alemães). Os jornais portugueses divulgam o fato e questionam se o sumiço foi crime ou suicídio.

 

Em Janeiro de 1931, Fernando Pessoa escrevia a Simões, dizendo ironicamente: “O Crowley, que, depois de se suicidar, passou a residir na Alemanha, escreveu-me há dias e perguntou-me pela publicação da tradução (de Hino a Pã). Tinha-lhe eu escrito, aqui há meses, que ela viria publicada na Presença em breve”. O ocultista morreu verdadeiramente em Brighton, na Inglaterra – mais exatamente no dia 01 de dezembro de 1947.

 

LEIA:

Hino a Pã, de Aleister Crowley

 

VEJA:

Carta de Aleister Crowley enviada a Fernado Pessoa

 

ASSISTA:

Fernado Pessoa – Poema em Linha Reta

Trecho do documentário Aleister Crowley – The Beast 666
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Del Toro e Depp em Medo e Delirio

Criador do jornalismo gonzo – estilo alucinado de narração jornalística onde reportagem e repórter se misturam –, Hunter S. Thompson lança o livro “Medo e Delírio em Las Vegas” em 1971 (originalmente publicado em capítulos na revista Rolling Stone). Calibrado com os mais diversos tipos de drogas, Thompson desconsiderava a objetividade e a imparcialidade da imprensa. Redigindo sempre em primeira pessoa, o escritor radicalizou a proposta já esboçada pela turma do “new journalism”; que propunha a utilização de uma narrativa mais literária. Seu universo onírico já foi adaptado duas vezes para o cinema: no filme “Uma Espécie em Extinção” (Where the Buffalo Roam, de 1980) e no cult “Medo e Delírio” (Fear and Loathing in Las Vegas, de 1998), dirigido por Terry Gilliam.

 

Em “Uma Espécie em Extinção”, Raoul Duke – o alter ego de Thompson, interpretado pelo ator Bill Murray – é designado para cobrir o Super Bowl e a eleição presidencial americana de 1972. Acompanhado de seu amigo chicano Carl Lazlo (vivido por Peter Boyle e inspirado em Oscar Zeta Acosta, defensor do jornalista por um curto período de tempo), a dupla testemunha tudo o que aconteceu de importante naquele período: desde um julgamento de drogas em São Francisco até uma entrevista com o futuro candidato à presidência, Richard Nixon, realizada em um banheiro. Durante a construção do personagem, Murray foi até o rancho do escritor e passou algum tempo bebendo, atirando e se divertindo com Thompson. Após as filmagens, o ator continuou agindo “gonzo” durante o começo da próxima temporada do Saturday Night Live (para desespero do elenco e da equipe do programa humorístico).

 

Numa de suas melhores interpretações, Johnny Depp encarna o alucinado Duke/Thompson em “Medo e Delírio”. Guiando um conversível alugado a 180 km/h, o jornalista parte para Las Vegas com a missão de relatar uma corrida de motos no deserto. Na companhia do advogado Dr. Gonzo – Benicio Del Toro precisou engordar 18 quilos para encarar o papel –, Duke traz uma quantidade infindável de drogas na bagagem do automóvel (compradas com o adiantamento que recebeu pela matéria). Sem meias-palavras, o livro/filme é um mergulho delirante e perturbador na decadência do sonho americano.

 

Muitas dos trajes que Depp usou no filme – e até o conversível vermelho que dirigiu – foram emprestados pelo próprio Hunter Thompson. Durante os quatro meses de convivência com o escritor, na preparação para desempenhar o personagem, Johnny Depp criou uma forte amizade com Thompson. “Medo e Delírio” conta com a colaboração de vários atores famosos (como Tobey Maguire, Cameron Diaz, Christina Ricci e Harry Dean Stanton) fazendo pontas discretas. Antes do início das filmagens, Depp recebeu o seguinte conselho de Bill Murray: “Tenha cuidado ou você se verá daqui a 10 anos ainda o interpretando... Garanta que seu próximo papel seja alguém dramaticamente diferente”.

 

A trilha sonora das duas produções também é excelente. Neil Young compôs os temas de “Uma Espécie em Extinção” – enquanto “Medo e Delírio” inclui canções de grupos como Jefferson Airplane, Buffalo Springfield e Dead Kennedys. O filme de Terry Gilliam captura melhor a escrita do jornalista e Where the Buffalo Roam proporciona uma visão mais realista de Thompson e Acosta.

 

Em 20 de fevereiro de 2005, já recluso e com problemas de saúde, o escritor suicida-se com um tiro na cabeça, aos 67 anos, em seu sítio localizado em Aspen (EUA). Seis meses depois, as cinzas de Thompson são lançadas no céu a partir de um foguete (em uma homenagem bancada pelo amigo Johnny Depp). O ritual foi realizado ao som de uma das músicas prediletas de Gonzo: “Mr. Tambourine Man”, de Bob Dylan.

 

LEIA:

– Medo e Delírio em Las Vegas, Hunter Thompson, Editora Conrad

– Reino do Medo, Hunter Thompson, Companhia das Letras

 

ASSISTA:

Medo e Delírio (trecho)

Uma Espécie em Extinção (trecho)

Entrevista com Hunter Thompson (1978)

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MENEGHETTI – O GATO DOS TELHADOS

No dia 28 de janeiro passado, a Livraria da Vila promoveu o lançamento do livro “Meneghetti, O Gato dos Telhados” (Boitempo Editorial), de Mouzar Benedito. O evento não poderia ocorrer em lugar mais apropriado: ali, na casa onde hoje funciona o escritório da livraria, policiais prenderam Meneghetti. Acusado de tentar arrombar o portão – ele portava uma talhadeira, um martelo e uma lanterna –, o idoso de 92 anos é liberado pelo delegado (por causa de sua idade avançada). No local, atualmente, encontra-se fixada uma placa com os seguintes dizeres: “Nesta casa, em 14 de junho de 1970, foi preso pela última vez o grande ladrão Gino Amleto Meneghetti”.

 

Nascido em Pisa (Itália) em 1878, Gino cometeu seus primeiros delitos na adolescência. Fugiu para a França e, anos depois, acabou deportado para o Brasil. Desembarcando em Santos em 1913 – aos 35 anos –, ele passa a morar com uma tia em São Paulo. Antes de completar um ano na cidade, é preso por roubo (sendo condenado a 8 anos de reclusão). Daí em diante, sua vida será uma sucessão de prisões, fugas, escapadas espetaculares por muros e telhados, uso de disfarces para não ser reconhecido... Meneghetti tinha um fôlego impressionante e escapava da polícia com facilidade.

 

Nas conversas de calçada dos bairros operários, era admirado por só roubar joias e mansões de milionários quatrocentões. Deixava bilhetes pirracentos para os ricaços – reclamando da qualidade dos produtos roubados – e, por meio de cartas endereçadas aos jornais, desafiava os policiais. Anarquista que era, ele justificava seus delitos citando o filósofo francês Proudhon (1809-1865): “A propriedade é um roubo, por isso não sou ladrão”. Certa vez, quando um escrivão perguntou por que seus filhos receberam os nomes de Lenine e Spartaco, Meneghetti foi incisivo: “Eu tenho ideias revolucionárias”. Acabou morrendo pobre e doente, aos 98 anos, em 1976.

 

A persona do “bom ladrão” já foi tema de diversas obras, como, por exemplo, o esgotado “Vida de Meneghetti: Memórias” (depoimento a M. A. Camacho), “O Incrível Meneghetti” (escrito por Paulo José da Costa Jr. que, por anos, foi seu advogado), “O Lendário Meneghetti” (de Célia de Bernardi) e também “O Grande Ladrão” (de Renato Modernell). O livro de Mouzar Benedito compila muitas informações dos lançamentos anteriores – acrescentando algumas novas –, traz fotos e ainda inclui a história em quadrinhos sobre o ladrão (publicada originalmente no jornal “Versus” em 1976) que inspirou o cineasta Beto Brant a fazer o curta-metragem “D'ove, Meneghetti”, de 1989.

 

Responsável pelo texto encartado na orelha do livro de Benedito, o jornalista Heródoto Barbeiro admite: "Por causa do ‘gato dos telhados’, levei muitos tapas da minha mãe. Não me lembro se a primeira vez que o vi foi antes ou depois do IV Centenário de São Paulo, mas nenhum menino que ouvia suas histórias era capaz de esquecer ou deixar de admirar o velhinho baixinho, com forte sotaque italiano e uma boina de aba. Meus olhos brilhavam quando Gino Meneghetti vinha ao bar do meu pai, na baixada do Glicério. Ficava no balcão e contava como pulava muros, saltava telhados, enganava a polícia e descobria onde os ricos guardavam suas joias. Era como um personagem que tinha saído do gibi e estava ali em carne e osso”.

 

LEIA:

Reportagem publicada sobre Meneghetti na Folha da Manhã (05/06/1926)

Reportagem publicada sobre Meneghetti na Folha de S. Paulo (24/05/1976)

 

ASSISTA:

D'ove Meneghetti, de Beto Brant (curta-metragem)
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JOELHO DE PORCO - DISCOGRAFIA COMENTADA

Com uma trajetória bissexta, o Joelho de Porco atravessou duas décadas esbanjando bom humor e boa música. Egressos da Pompeia (bairro paulistano de onde saíram nomes como Mutantes, Tutti Frutti e Made in Brazil), o grupo liderado por Tico Terpins teve inúmeros integrantes em sua formação. Pouco lembrado pela grande mídia, o rock da banda rendeu uma discografia que inclui quatro álbuns de estúdio – e mais o lançamento de um compacto simples.

Compacto 1973
 

Reunidos no estúdio Prova, Tico Terpins (voz, violão e guitarra base), Conrado Assis Ruiz (piano e vocais), Gerson Tatini (guitarra), Rodolfo Ayres Braga (baixo) e Próspero Albanese (bateria e vocais) lançam pela gravadora Sinter/Phonogram um compacto simples em 1973. A canção “Fly América” figura no Lado A do disco e “Se Você Vai de Xaxado, Eu Vou de Rock and Roll” no Lado B. Arnaldo Baptista produz a estreia fonográfica do Joelho e ainda executa o tema principal da Nona de Beethoven – num sintetizador Harpschord – ao final de “Fly América”. Entrevistado pelo fanzine Coletivo Só, em outubro de 2008, Rodolfo recorda a experiência de gravar com o ex-mutante: “Ele era um bom sujeito, bem intencionado. Apoiou bastante a gente naqueles tempos”.

Sao Paulo 1554/Hoje
 

Rodolfo e Conrado abandonam o grupo em 1973. Walter Baillot substitui Tatini na guitarra e Albanese assume a voz; legando o posto de baterista para Flavinho Pimenta. Contando com os reforços de Serginho Sá no piano e Dudi Guder na percussão, o Joelho entra no Estúdio Vice-Versa e registra o 1º LP da banda: “São Paulo 1554/Hoje” (lançado em 1976 pelo selo Crazy). O repertório do álbum traz canções memoráveis como “Mardito Fiapo de Manga”, “Aeroporto de Congonhas” e “Boing 723897”. Arnaldo Baptista toca piano em "México Lindo". Na bela “A Lâmpada de Édison”, Terpins filosofa: “Eu vou escrever no muro / Hoje é o passado do futuro”.

Joelho de Porco 1978
 

O grupo retorna com uma nova formação (Billy Bond na voz, Tico Terpins no baixo e nos vocais, Wander Taffo na guitarra, Juba na bateria e Paulo Stevez no órgão, piano e mini moog) e lança, pela gravadora Som Livre, o disco homônimo em 1978. Com um virtuose como Taffo na formação, o som do Joelho ganha uma pegada mais hard rock; com predominância dos solos de guitarra. Aqui, a trupe inicia a tradição – e que seria uma constante na carreira – de incluir em seus LPs alguma regravação do primeiro álbum. “Aeroporto de Congonhas” reaparece, num arranjo diferente, ao lado de músicas antigas como “São Paulo By Day” e “Boing 723897”. Entre as novas canções, destaque para “Paulette, Mon Amour” e a marchinha psicodélica “Mandrake”. Logo após este lançamento, Terpins encerra as atividades do conjunto e cria o estúdio de gravação A Voz do Brasil.

Saqueando a Cidade

Em 1983, Tico remonta o Joelho com Zé Rodrix (seu sócio de estúdio) e grava “Saqueando na Cidade”, o terceiro álbum. O disco trazia no encarte a seguinte inscrição: “Se você não entender alguma faixa, pergunte ao papai”. A banda volta mais afiada do que nunca e a dupla Rodrix/Terpins não perdoa ninguém: punks (“Telmo Martírio”), judeus (“Noite de Natal”), FMI (“Vai Fundo”), Tim Maia (“Pé na Senzala”) e até Roberto Carlos (“Um Trem Passou por Aqui”) são alvos de suas ironias. Lançado originalmente como LP duplo pela gravadora Continental, o vinil foi relançado pela Movieplay em 1998 como CD simples. Em 1985 – com David Drew Zingg nos vocais –, o grupo participa do Festival dos Festivais, promovido pela Rede Globo. Eles conquistam o prêmio de melhor letra pela canção “A Última Voz do Brasil” (que é inclusa numa coletânea lançada pela Som Livre). No mesmo ano, emplacam a música “O Grande Silva” na trilha sonora da novela “De Quina pra Lua”.

18 Anos sem Sucesso

Novamente gravando no estúdio A Voz do Brasil – e tendo Tico Terpins, Zé Rodrix, Próspero Albanese e David Zingg na formação –, o Joelho de Porco lança em 1988, pela gravadora Eldorado, o que seria o último registro da banda: o álbum “18 Anos sem Sucesso”. A faixa-título retrata o histórico de “roubadas” com gravadoras, empresários, produtores e radialistas enfrentados pelo grupo. O disco é composto por inúmeras versões em português para standards e canções da era pré-rock. Entre as selecionadas, estão faixas como You Really Go To Hold On Me (que virou “Enquanto Você Pisa Ni Mim”), Riot in Cell Block Number 9 (que foi rebatizada como “Rebelião no Carandiru”) e a clássica The Man I Love, de George e Ira Gershwin; que se transformou em “O Homem que Eu Amo”. O disco também inclui uma parceria de Tico com Leon Cakoff – “De Véu e Grinalda” – e fecha com outra regravação de “Boing 723897”.

 

Aproveitando o relançamento da discografia do Joelho em CD – com exceção do álbum homônimo de 1978, que seria relançado apenas em 2006 –, uma nova reunião estava sendo articulada em 1998. Porém, Tico Terpins sofre um enfarte, falece e o retorno não se concretiza. Em 2005, a banda toca no Sesc Ipiranga, em São Paulo. Durante a Virada Cultural, em maio de 2009, o grupo – contando com Conrado, Próspero e Rodolfo – faz uma apresentação vergonhosa na Praça da República. Eles entram atrasados no palco e fazem um pocket-show de 20 minutos; onde a falta de sintonia entre os integrantes se evidenciou. Alguns dias após a Virada, Zé Rodrix morre (vítima de um enfarte fulminante). Rodrix não participa dessa última reencarnação da banda.

 

OUÇA:

Joelho de Porco - Se Você Vai de Xaxado, Eu Vou de Rock and Roll

Joelho de Porco e Arnaldo Baptista - México Lindo

Joelho de Porco – A Última Voz do Brasil

 

ASSISTA:

Joelho de Porco - São Paulo By Day

Joelho de Porco - Rio de Janeiro City

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QUEM TRADUZ OS TÍTULOS DE FILMES?

Eis uma questão recorrente: quem nunca ficou horrorizado ao descobrir como o título de determinado filme estrangeiro foi vertido para o nosso idioma? A tendência é que o público coloque a culpa nas costas do tradutor; que é responsável pela transposição dos diálogos para as legendas – e também para a dublagem. Mas a decisão é exclusividade da empresa que lança a obra. Tudo é reduzido ao apelo comercial. Em muitos casos, o nome estrangeiro realmente precisa ser alterado (ao pé da letra, diversos títulos ficariam sem graça e/ou não fariam o menor sentido em português).


Os tradutores também cometem seus deslizes – como aportuguesarem nomes próprios e omitirem palavrões das legendas –, mas uma escolha equivocada pode deturpar uma produção. Na verdade, as empresas criam um título novo em detrimento do nome original. É muito comum, aqui no Brasil, rebatizar os filmes com expressões como “da pesada”, “do barulho” e “pra cachorro”. Ou então fazer uso de subtítulos desnecessários, que não acrescentam absolutamente nada. Silvio Santos continua renomeando, de maneira infame, inúmeras séries de tevê e filmes transmitidos pelo SBT.

 

Alguns resultados são desastrosos. O filme “Stuart Little”, por exemplo, recebeu o título de “O Pequeno Stuart Little”. Pergunto eu: por que o nome não foi traduzido apenas como “O Pequeno Stuart”? Mas existem casos piores... Lembram-se do filme “Meu Primeiro Amor” (My Girl), que ganhou uma continuação chamada “Meu PRIMEIRO Amor 2”?

 

E isso não é de hoje. O que dizer do clássico “Giant”, de 1956, que é conhecido por nós como “Assim Caminha a Humanidade”? Hitchcock sofreu com os nomes dados a seus filmes no Brasil. Vertigo virou “Um Corpo que Cai”, Spellbound tornou-se “Quando Fala o Coração” e Sabotage recebeu o inacreditável título de “O Marido era o Culpado” (em Portugal, a mesma obra é chamada de “À 1 e 45”). Os exemplos lusitanos também não ficam atrás no quesito bizarrice. “Analyze This” (1999) e “Analyze That” (2002) – ambos com Robert De Niro – foram rebatizados, respectivamente, como “Uma Questão de Nervos” e “Outra Questão de Nervos” (aqui, eles se chamam Máfia no Divã e A Máfia Volta ao Divã). Mas nenhuma intervenção poética supera a da comédia “Balls of Fury”, de 2007, que os portugueses traduziram como “Não me Toques nas Bolas”.


 

Veja alguns exemplos recentes no Brasil: “Step Up” virou “Se Ela Dança, Eu Danço” (2006) e "My Mom's New Boyfriend" (2008) teve o título trocado para "Mais do que Você Imagina". Um outro caso é o “Up in the Air”, de Jason Reitman, lançado há pouco no país. Na esperança de atrair em massa a audiência feminina aos cinemas – e contando com a presença de George Clooney no elenco –, decidiu-se rebatizar a produção como “Amor sem Escalas” (mesmo que o filme não se encaixe na definição de comédia romântica).

 

ASSISTA:

Títulos de filmes

Confusão na Sessão da Tarde

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A LIGAÇÃO INUSITADA ENTRE PELÉ E OS BEATLES

Em 1966, a Copa do Mundo de futebol é disputada na Inglaterra. Os jogos da seleção brasileira ocorrem no Goodison Park, estádio do clube Everton, na cidade portuária de Liverpool (terra natal dos Beatles). A estréia do Brasil – em 12 de julho – foi com uma vitória sobre a Bulgária por 2 a 0. Alvo da violência búlgara, Pelé não atua na partida seguinte. Sem sua maior estrela, no dia 15, a equipe sucumbe diante da Hungria (perdendo por 3 a 1). A vaga para as quartas-de-final é decidida no último jogo, no dia 19. Contra a seleção portuguesa, Pelé volta a campo e, mais uma vez, é caçado pelos adversários. Com uma nova derrota por 3 a 1, o Brasil é eliminado da disputa e não passa da primeira fase do mundial. Esse foi um dos nossos piores desempenhos na história das Copas.

 

Aquele mesmo ano foi bastante tumultuado para os Fab Four: em março, durante uma entrevista, John Lennon declara que os Beatles eram mais populares que Jesus (o que repercutiu negativamente ao redor do mundo); eles gravam o álbum “Revolver” em abril e, em 03 de julho, se apresentam em Manila, nas Filipinas (sendo agredidos no aeroporto local por não comparecerem a uma festa promovida por Imelda Marcos, primeira-dama do país). Segundo depoimento de Pelé, os Beatles – de volta à Inglaterra – mandaram um emissário até o hotel onde a equipe brasileira estava hospedada. Ele queria promover um encontro da banda com o jogador brasileiro. Como Pelé não dominava o inglês, ele chamou o coordenador técnico da seleção para traduzir o que dizia o secretário dos Beatles. Quando soube do que se tratava, o dirigente encerrou a conversa dizendo: "nada de cabeludos na concentração”. E o tal representante da banda voltou à Londres.

 

No começo da década de 1970, Pelé – que defendia o time do Cosmos – teria conhecido Lennon em Nova York. O encontro, ainda segundo o rei do futebol, aconteceu na cantina do instituto de idiomas que os dois frequentavam (onde John fazia aulas de japonês). Lennon lembraria da tentativa frustrada em conhecê-lo e perguntaria ao brasileiro:

 

– Você sabe quem eu sou?

– Claro que sei, respondeu Pelé.

– Então por qual motivo você não quis me receber em Liverpool?

 

Nos anos 1990, Pelé gravou um depoimento em vídeo aonde confirma essas passagens curiosas. A declaração do ex-atleta acabou sendo exibida pelos capixabas do Clube Big Beatles durante o “International Beatles Week” de 1997 (evento em homenagem aos Fab Four, realizado anualmente em Liverpool).

 

ASSISTA:

Clube Big Beatles exibe depoimento de Pelé em Liverpool (1997)

Desempenho brasileiro na Copa do Mundo de 1966

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